sábado, 8 de janeiro de 2011

Tratando Feridas


por Simone Karuta, médica neurologista infantil

Vou tentar descrever em palavras esta experiência intensa e marcante que foi servir a Deus de uma forma inesquecível.

Estive por duas semanas como médica, atendendo as vítimas das enchentes na República Islâmica do Paquistão. Infelizmente, fui sem meu amado esposo, e Deus conhece as razões. As enchentes começaram no início do mês de agosto e fizeram 2 mil mortos e mais de 20 milhões de desabrigados. A viagem foi possível graças à visão humanitária e missionária da AME - SOS Global, ONG que tem como objetivo principal levar socorro aos necessitados vítimas de catástrofes, desastres e guerras. A AME realizou uma parceria com a Park Mission Society, organização cristão Paquistanesa que realiza um trabalho impressionante com aquele povo tão necessitado. Nosso principal objetivo desde nossa chegada à de Mardan era montar Acampamentos Médicos na região da Charsada, local ao extremo Norte do Paquistão, praticamentedivisa com o Afeganistão. Até mesmo o governo do país tem temor em acessar estas áreas devido à existência dos terroristas Talibãs. E com fé, muita oração e sem medo (porque o amor de Deus lança fora todo o medo) realizamos atendimentos em Charsada por duas semanas. Diga-se de passagem, que praticamente todos os dias tínhamos escolta policial do governo. Como estávamos em um país islâmico, as leis e cultura eram totalmente diferentes das conhecidas no mundo ocidental, portanto, nossas vestimentas, comportamento, contato com as pessoas precisaram ser rapidamente modificados. Nossas vestimentas para atendimento aos pacientes eram semelhantes as da população local, e como mulheres mantínhamos nossas cabeças cobertas durante o dia. O detalhe a ser lembrado é de que a temperatura média era de 33ºC, com uma umidade do ar de aproximadamente 70%. Fazia muito calor!!!

Nossas experiências foram diversas. A primeira parada foi em uma vila extremamente destruída pelas águas. Não havia quase casas que resistiram às chuvas; as famílias haviam perdido todos os seus utensílios domésticos e suas plantações; a lama ocupava toda a extensão da vila e não havia água limpa para uso pessoal. As doenças mais comuns tratadas foram as diarréias agudas, as lesões de pele, incluindo lesões bacterianas graves e grandes abscesso que necessitaram ser drenados a céu aberto, as infecções pulmonares e outras doenças como anemias graves, desnutrição e desisdratação. Enquanto atendíamos em média 100 pacientes por dia (dois médicos e uma enfermeira), uma outra parte da equipe era responsável pela distribuição e orientação do uso das medicações, outra equipe distribuía as senhas e receitas médicas a serem preenchidas e uma terceira equipe realizava uma pesquisa na localidade, avaliando as principais necessidades da população, pensando em um auxílio não somente imediato, mas também a longo prazo. Nossa equipe era constituída de Paquistaneses, Americanos, Alemães, Brasileiros, Australianos, Bolivianos e Peruanos. Diversas nacionalidades falando a mesma linguagem: O AMOR. E assim foram os nossos dias, nada de pregação em praças, ruas, distribuição de folhetos. Todas estas coisas são proibidas neste local. Nossas atividades se baseavam no AMOR e que arma poderosa o nosso Deus nos deu. Uma das mulheres atendidas me disse em sua língua local: "obrigada por ter me trazido não só atendimento, mas ter me dado felicidade".

Como pediatra, minha maior prioridade eram as crianças, e todas elas muito sofridas e tristes sempre chegavam a mim chorando. Mas Deus nos deu uma estratégia para o choro. Em minha mente orava e pedia ao Senhor que mesmo que eu falasse uma língua que aquela criança não entendesse, ela pudesse se acalmar com o tom da minha voz e sentir um toque de amor ao exame médico. E o exame se iniciava com choro e por muitas vezes terminava com as mãos destas crianças em meu rosto. Impressionante e indescritível o amor do nosso Deus!

Eu também tinha uma tradutora de nome Lubna, que traduzia meu inglês para uma das línguas locais (o Pashtu), e criamos uma importante amizade. Lubna é Hindu. Mas presenciou por duas semanas o amor cristão. Oramos para que isto transforme sua vida.

Meus olhos também presenciaram coisas intragáveis como mulheres que vinham com queixas de infecções uterinas após abortos realizados por parteiras, devido ao fato de que estavam grávidas de meninas. Em sua crença, o primeiro filho deve ser homem! Que Deus tenha misericórdia. O que acontece com mulheres nesta cultura é tema para um capítulo inteiro...

Mas os pensamentos de Deus realmente são mais altos do que os nossos, porque estávamos em terra inimiga, com placa de cristãos, em período de Ramadã (jejum e oração dos mulçumanos com duração de 1 mês) e acreditem... atendemos dentro de uma Mesquita. Atendemos 115 homens, mulheres e crianças com a permissão do ancião local. Milagres do Senhor perante os nossos olhos.

E com certeza eu teria muito mais para contar, mas não poderia deixar de dizer o que Deus ministrou em minha vida através desta oportunidade: Meu país é cheio de pobreza, necessidade, crendices e catástrofes. Não preciso ir tão longe para me deparar com isto! Preciso sim "Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a mim mesmo" e isso começa aqui e agora no meu Brasil. Seja parte deste movimento de amor, negando-se a si mesmo, pegando a sua cruz e seguindo a Cristo não só naquilo que nos convém, mas em totalidade, deixando de sermos cristãos de título e de papel, nos transformando em imitadores de Cristo na prática e em verdade. Oremos pelo Paquistão, oremos pelo Brasil, arregacemos nossas mangas e comecemos a trabalhar. Deus conta comigo e com você.

Fonte: Revista PIB - edição especial
MISSIONAR 2010


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