sábado, 22 de janeiro de 2011

Crônicas da vida cristã: RELIGIOSIDADE

por Rawderson Rangel*

No tempo do império Romano, a crucificação era comum. Alguns falam de milhares de condenados, por crimes considerados graves ou traição ao império. Muitos eram crucificados na sua região, justamente para que as pessoas que os conhecessem pudessem testemunhar a condenação. E dois amigos se encontraram para presenciar a morte de alguns condenados.

- O império não perdoa – disse Ben Gamala.

- Não perdoa. Quantos são hoje? Ouvi dizer de dois – perguntou Joshua.

- São três. Deixei meu momento devocional agora mesmo para acompanhar de perto a condenação. Meditava em Isaías. Que texto maravilhoso! Como fala de cuidar das pessoas, da falsa religiosidade, da hipocrisia. Mas tive que vir. Você sabe, um dos condenados ofendeu a honra do amigo de um vizinho meu.
- Ah! Compreendo. É bem verdade que meditar nos profetas é importante, sem dúvida, mas é importante presenciar a sentença. Mesmo sendo por parte dos romanos, devemos sempre lembrar que as pessoas merecem a sua condenação quando erram.

- É verdade! Meu amigo me contou que esse crucificado roubou e matou. O crime foi grave e o império levou às últimas conseqüências. E não trabalhou sozinho, não. O outro também foi apanhado e agora os dois estão na cruz. É bem feito. É o que lhe digo: só deixei minha meditação por que a causa é justa.

- Pois você sabe que eu também meditava? Refletia sobre Deuteronômio, justamente em textos nos quais Moisés repetia aquilo que o Senhor havia ordenado às pessoas com relação ao próximo: cuidar deles. Incrível: é sempre bom lembrar o perdão das dívidas depois do sétimo ano. E sobre os escravos? Libertar depois de um tempo, permitindo que eles possam sair com alguma coisa para começar a vida: alguns animais, alguns bens...

- Quando penso nisso, percebo quanto devemos meditar na lei. Fazê-la cumprir em nosso viver diário.

Enquanto caminhavam até o local da crucificação, falavam dos detalhes da lei deixada por Moisés, especialmente sobre a atenção aos necessitados. Comentavam ainda sobre os profetas e a sua condenação às autoridades por não cuidarem dos outros. Um caminho enriquecedor de reflexão, de apresentação de descobertas. Até que chegaram ao local da crucificação. Era muita gente. Um espetáculo não menos horrível que aqueles que viriam tempos depois no coliseu romano: sangue que regava o chão seco, que pintava a madeira, que cheirava dor, dor e sofrimento.

- Lá estão eles! Homens que pagam pelo preço de roubo e morte! Venha, vamos chegar mais perto.

Ao se aproximarem, Ben apontou para os dois e disse: - Veja! Aquele roubou, o outro é seu comparsa. Deve ter roubado outras coisas. Olhe lá!

- Eu considero a crucificação uma injustiça, eu confesso. O apedrejamento é bem melhor, pois podemos expressar nossa indignação e participar mais ativamente da ofensa provocada.

- Sabe que você tem razão? Mas mesmo assim, já que aqui estamos, podemos ao menos extravasar e dizer o que eles merecem.

Foi assim que, acompanhando os gritos da multidão, os dois defendem a causa do amigo de um ilustre desconhecido. Esbravejam contra eles, ofendem-nos com toda a sorte de palavras. E, como já estivessem por muito tempo ali, as pessoas começava a se cansar de tantos impropérios liberados diante da condição miserável.

Ben e Joshua se aproximaram ainda mais para olhar firmemente o rosto dos condenados. Aqueles homens pendurados por sua sentença conversavam entre si. Joshua cutuca Ben e diz: Veja um deles tenta nos ofender! Maldito é você! - Grita ele.

- Olhe: o que está no meio está com cara de pena... O miserável ainda tem a ousadia de olhar para nós: Indigno! Indigno!

- Foi então que ouviram apenas um detalhe da conversa: depois de se prender aos dois com misericórdia, o condenado entre as cruzes olha para o seu lado e, no limite de suas forças, com muita dificuldade, diz a um dos crucificados:
- Hoje mesmo... Estarás comigo no paraíso...

- Miserável! Que paraíso! Morra em seu crime! – gritava Ben. Seu colega aproveita para mais uma série de maldições e desejos de desgraça.

Deu-se mais algum tempo, até que, já dando as costas para a negra cena, um comenta com o outro:
- Vamos embora, está na hora. Não posso mais perder tempo com essa crucificação. Prefiro minhas meditações.

- Ah! Claro! Vamos sim. Esqueci de lhe falar outra coisa interessante que percebi na devocional que fiz ontem: Diz Moisés sobre o Senhor: “Tens mais prazer em perdoar que condenar”. Não é lindo?

- Lindo! Lindo mesmo...
 

*Pastor da Igreja Batista da Barreirinha; autor dos livros: Manual Prático para o Culto Cristão (edição 1 e 2). Graduado em Teologia e Pós Graduado em Teologia do Antigo Testamento pela FTBP; Mestrando em Teologia pela PUCPR; professor de Teologia (EAD) na FACEL. E é colunista do Jornal "O Batista Paranaense"

Fonte: Jornal "O Batista Paranaense"

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