terça-feira, 23 de junho de 2009

Balthasar Hubmaier: a verdade não se mata

Nem sempre houve batistas, presbiterianos, metodistas, assembleianos e católicos. No início só havia uma igreja: a igreja cristã. Esta igreja se tornou, cerca de quatro séculos depois, em Igreja Católica. Quando começou o chamado mundo moderno, pondo fim à chamada Idade Média, esta Igreja Católica foi deixando de ser única.

Na Alemanha e na Suíça várias pessoas se organizaram em movimentos em busca de mais liberdade e mais santidade.

Um destes grupos achava que a Igreja Católica estava completamente corrompida e nada tinha mais de cristã. Para eles, um dos principais motivos para isto era que as pessoas se diziam cristãs sem terem passado pela experiência da conversão.

Por isto, não aceitavam de jeito nenhum que uma pessoa fosse batizada ao nascer. O batismo devia ser uma demonstração pública e consciente de uma pessoa que tinha aceito Jesus Cristo como seu Salvador e Senhor. Não podia ser coisa para criança.

Assim, quando uma pessoa vinha até eles e se convertia era batizada, alguns por aspersão (jogando um pouco d'água na cabeça) e outros por imersão (mergulhando inteiramente na água). Quem não pertencia a estes movimentos achava que eles rebatizavam as pessoas. Por isto chamavam a estes crentes de “anabatistas”, isto é, rebatizadores.

Essa ideia era um escândalo naquela época. Menos para o alemão Balthasar Hubmaier. No início, ele seguia o pensamento da época. Aluno de Johann Eck, grande adversário de Martinho Lutero. Foi assim que adquiriu o seu doutorado em Teologia. Logo se tornou um pregador famoso. Seus sermões contra os judeus levaram à expulsão deles da cidade e ao fechamento da sua sinagoga, transformada numa capela católica.

Logo depois, mudou-se para uma cidade próxima da Suíça e conheceu o protestantismo. Ele visitou o grande teólogo Erasmo, da Holanda, e se tornou amigo e colaborador de Zwinglio, o reformador suíço.

A partir daí sua liberdade de pensamento constituiu-se num perigo para sua vida. O governo pediu sua prisão e ele teve de fugir para um convento. Suas ideias sobre o batismo se chocaram com as de Zwinglio.

Aprofundando-se nos estudos, conheceu Conrad Grebel e aceitou as ideias anabatistas (valorização da experiência religiosa pessoal, recusa do batismo infantil e aceitação da separação completa entre Igreja e Estado).

Por esta época havia um movimento anabatista muito forte, liderado por Thomas Münzer. Hubmaier se aproximou do grupo. Parece até que ele ajudou a escrever os 12 artigos que continham as reivindicações dos camponeses:

- achamos que cada comunidade (igreja) tem o direito de escolher seu próprio pastor;

- entendemos que é justo pagar-se o grande dízimo sobre a colheita, mas não os pequenos dízimos;

- declaramos que a servidão, vivida sob a forma de trabalhos excessivos ou forçados e de arrendamentos desfavoráveis, é contra o Evangelho e contra a liberdade cristã;

- exigimos o direito de pescar, caçar e tirar madeira nas florestas comuns;

- queremos julgamentos justos conforme as leis escritas;

- exigimos o fim dos impostos de herança, que mantêm órfãos e viúvas na miséria;

- informamos que estamos dispostos a retirar qualquer artigo que contrarie a Palavra de Deus.

Hubmaier, no entanto, se afastou quando descobriu que eles admitiam a violência como método de defesa e pregação de suas ideias no campo social - o resultado seria a chamada Guerra dos Camponeses, quando mais de 100 mil civis, armados pobremente e pobremente treinados, foram assassinados pelos exércitos governamentais com a concordância de Lutero. Este foi um dos maiores crimes praticados contra a humanidade em toda a sua história. Feito, infelizmente, como muitos outros, em nome de Deus.

Diferentemente de quase todo mundo nesta época, Hubmaier era um pacifista. Nada de guerra.

Num dos seus sermões disse ter recebido a orientação de Deus para condenar o batismo de crianças. Pouco depois foi batizado junto com sua igreja e passou a batizar outros adultos. A seguir escreveu seu livro mais famoso: “O Batismo Cristão de Crentes”. Ele acabou com a missa e tirou o altar, a pia batismal, as imagens e as cruzes da sua igreja.

Por isto foi preso e obrigado a renunciar às suas ideias. Entretanto, uma ideia não se mata, como ele mesmo disse. Solto, foi para outra cidade levando consigo uma pequena gráfica na qual imprimiu vários folhetos e formou várias igrejas. Fez isto até que foi preso e levado para Viena junto com sua esposa. Acusação: ter participado da Guerra dos Camponeses ao lado dos anabatistas. Desta vez, ele ficou firme.

Foi queimado vivo numa estaca, sem perder a serenidade. Suas cinzas foram jogadas no rio Danúbio. Neste mesmo rio, três dias depois, sua corajosa esposa foi afogada à força com uma pedra amarrada ao pescoço. Sua igreja continuou e suas ideias foram levadas a toda Europa.

Nós, batistas, devemos muito a este defensor da liberdade religiosa.

ISRAEL BELO DE AZEVEDO
israelbelo@gmail.com
Pastor da IB em Itacuruçá (RJ)
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